Monday, January 18, 2016

Uma ceia vegetariana

.lentilha, louro, arroz e romã.

Pela manhã coloquei 2 xícaras de grão de bico para hidratar imaginando que materializar um hommus seria bom para iniciar. Com pouco esforço e algumas mensagens por wasap consegui juntar 14 pessoas, um bom número para quem não planejou nada para a noite de ano novo.

Um pouco antes do pessoal chegar preparei uma massa de tortilha de trigo e deixei descansar. Quando a Paulinha chegou ensinei ela a abrir  a massa e pronto. Pedro que morou no México disse que lembrou as tortilhas caseiras que comia por lá.

A Susana chegou tipo 23:30 com a lentilha ainda no saquinho. Quando bateu meia noite a mesa estava pronta, parece mentira né? Já sabia que ia ser arroz com lentilha, preparo fácil, chamado Mjadra. Sabe? Pode ser que você já comeu e não sabia que este era o nome, aliás a primeira vez que me dei conta do nome foi quando morava com a Marie, e te conto mais, a receita esta aqui e  também aqui! Mas muito, muuuuuuuuuuuuuuuuuuito mudou desde que fiz pela primeira vez este prato.

Em ocasiões especiais gosto muito de fazer com arroz de risoto pois fica mais saboroso e naturalmente cremoso. Mas a receita tem um segredo, para poder cozinhar a lentilha JUNTO com o arroz recomendo o seguinte procedimento: lave a lentilha e coloque em uma panela, cubra com água e acenda a chama, assim que ferver escorra a água e pronto, você a deixou no mesmo ponto de cozimento do seu arroz. 

É isso, te conto a receita da minha primeira Mjadra de 2016! E como eu amo fazer este prato, especialmente quando somos em muitos.

Mjadra 2016
(atenção! Esta não é uma receita tradicional, uso outros temperos)

800 g de arroz arborio
500 g lentilha miúda

temperos:
3 bagas de cardamomo (abra descarte a casca e use somente as sementinhas pretas que estão dentro)
5 dentes de alho com a casca cortados ao meio
3 un de cravo-da-índia
1 pedacinho de macis
2 cebolas picadas
1 ramo de segurelha
1 ramo de tomilho
3 folhas de louro
Azeite
Água
sal

5 cebolas médias em rodelas e super douradas em manteiga ou azeite de oliva

1. Prepare a lentilha conforme a dica acima. Aqueça água.
2. Aqueça uma panela rasa de barro e adicione o azeite e adicione todos os temperos, exceto os ramos de ervas. Mexa bem até a cebola ficar transparente  então adicione os grãos, mexa,  cubra com água e ajuste o sal. Não sei te dizer agora o quanto de água. Se você ficar inseguro(a) cubra e deixe sobrar uns 2 cm de água.
3. Quando ferver abaixe o fogo e adicione as ervas. Cozinhe por 10 minutos ou até a água secar e os grãos cozinharem, se for necessário adicione mais água. Lembre-se que se for preparar na panela de barro é indicado desligar um pouquinho antes do ponto, afinal ela fica tão quente que o cozimento continua  mesmo com o fogo desligado. É isso, finalize com um fio de azeite e cebola dourada por cima.

Servi com legumes grelhados na chapa, hommus, tortilha feita na hora e um molho de romã. Pratos tipo assim, antigos.



A berinjela e a abobrinha não escondem segredo, é só fatiar e dourar em uma chapa bem quente e com pouco azeite. Como era ano novo o Roberto Samuel  trouxe romãs que colheu na árvore de sua casa e juntos preparamos um delicioso:


Te conto, a receita é simples. O mais difícil é tirar as sementes da romã, mas bem não fui eu quem fiz esta parte. Enquanto eu grelhei os legumes Roberto separou as sementes e assim foi, cozinhamos juntos papeando. Assim é bom, não é?

Ingredientes para o molho:

4-5 romãs médias
Mel
Azeite
1 limão siciliano 
sal


1. Corte a romã ao meio e retire todas as sementes, não deixe nenhuma parte branca pois pode prejudicar o sabor do nosso molho. Não é difícil, só é preciso ter paciência e boa vontade, virtudes ué.
2. Coloque as sementes em uma louça linda  e finalize com o suco do limão, um fio generoso de mel, um fio generoso de azeite e misture bem. Ajuste o sal e pronto. Não precisa por muito sal, é legal deixar o doce da romã e do mel sobressair.
3. Sirva sobre os legumes ou como preferir.

Neste vídeo ensino fazer o vinagrete de Romã, parece igual mas é diferente:





E antes de jantar Roberto nos desejou poucas e boas para 2016 e então recitou este lindo poema de Fernando Pessoa:

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."






2 comments:

robertosamuel said...

Oi Rita, que delícia este espaço do Prato de Papel. Como é uma delícia ver seus vários processos criativos. Como ficou bonito e como é agradável sua forma de apresentação.
Está muito gostoso também vê-la e ouvi-la ensinando-nos a fazer os seus pratos. Tudo muito bom e agradável.
Como foi agradabilíssima nossa noite de entrada de ano e a ceia maravilhosa (como sempre!) feita por você.
Seus pratos sempre têm o seu toque característico e denotam a sua personalidade, pois é feito com muito carinho e competência e acabam resultando na beleza visual, no aroma sutil e no sabor perfeito que nos leva à leveza de determinadas nuvens. Há um aspecto especial nos seus processos criativos gastronômicos que seus pratos nos fazem calar a fala, sorrir com os olhos, aspirar profunda e calmamente o aroma, sentir o sabor na boca e outras percepções que envolvem o corpo todo, trazendo-nos o prazer de uma música inexplicável no ato de comer um alimento que não está só preocupado em satisfazer as necessidades físicas de um corpo, mas também de dar prazer à alma, possibilitando um determinado clímax, porque essa forma de preparar é um ato de amor.
Obrigado por mais esses momentos mágicos de vida que você enriqueceu nessa entrada de ano, Rita. Sua Energia, com certeza, constribuiu para a Energia Boa que teremos neste Ano. Paz.
Roberto Samuel

robertosamuel said...

E aqui vai mais um poema do Fernando Pessoa:

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo. . .
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XVIII"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Abraço agradecido.